E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis,
mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substancia da alma.
Tudo em mim é a tendencia para seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma
criança inoportuna; um desassocego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atento a tudo sonhando
sempre; fixo os minimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas
ao ouvi-lo não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi na conversa foi a noção do que nela se disse, da
minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo
aquilo que já me respondeu; mas posso escrever em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que
não me lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que não me recordava ter-lhe feito.
Sou dois e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados.
Bernardo Soares - Ajudante de guarda livros na cidade de Lisboa